As discussões sobre as mudanças climáticas são apresentadas como um problema global, como de fato. Em conferências internacionais fala-se do aquecimento dos oceanos, do derretimento das geleiras, das emissões de carbono e as metas – quase nunca cumpridas – são fixadas.
O que, me parece, precisa ser ressaltado é que os efeitos concretos dessas transformações têm endereço certo: AS CIDADES.
No Brasil, de acordo com o IBGE, 87,4% da população vive em áreas urbanas. É nas cidades que as enchentes causam os maiores impactos, arrastando casas, desalojando e desabrigando milhares de pessoas, comprometendo a economia, interrompendo serviços públicos e provocando deslizamentos de terra.
Com a possibilidade de um Super El Niño — fenômeno capaz de alterar profundamente os regimes de chuva e temperatura em diversas regiões do planeta — os administradores municipais precisam compreender que o clima deixou de ser uma questão ambiental para tornar-se uma questão de sobrevivência urbana.
Prefeitos e vereadores no Brasil continuam discutindo, muitas vezes, os problemas do século XX, enquanto os desafios do século XXI já batem às portas das cidades. A impermeabilização crescente do solo, a ocupação irregular de encostas, a destruição de áreas verdes, a canalização inadequada de córregos e a falta de planejamento urbano amplificam os efeitos dos eventos climáticos extremos.
As tragédias recentes no Rio Grande do Sul, no Paraná, Santa Catarina, em Petrópolis, no litoral norte paulista e em tantas outras regiões brasileiras demonstram que as cidades estão hoje na linha de frente das vítimas da crise climática. Não se trata mais de prever o futuro, mas de lidar com um presente cada vez mais instável.
Enquanto muitas administrações municipais ainda reagem apenas depois das catástrofes, algumas cidades do mundo decidiram agir antes. A cidade de Copenhagen, na Dinamarca, por exemplo, sofreu em 2011 uma inundação histórica que provocou prejuízos bilionários. Em vez de reconstruir tudo da mesma forma, implantou um ambicioso plano de adaptação climática: parques, praças e áreas públicas passaram a funcionar como grandes reservatórios temporários de água da chuva. Ruas foram redesenhadas para direcionar o excesso de água para locais seguros. Com isso a capital dinamarquesa tornou-se referência mundial no conceito de “cidade-esponja”, capaz de absorver e reter grandes volumes de chuva, reduzindo drasticamente os riscos de enchentes.
Tóquio possui um sistema subterrâneo gigantesco, capaz de captar e escoar volumes extremos das águas de tufões. Rotterdam, na Holanda, país historicamente ameaçado pelas águas, utiliza praças que funcionam como bacias de retenção para evitar esses alagamentos. Ali, a adaptação climática passou a fazer parte do planejamento urbano permanente. Praças foram concebidas para servir simultaneamente como espaços de convivência e reservatórios durante tempestades. A gestão pública compreendeu que investir em prevenção custa muito menos do que reconstruir após os desastres.
Em várias cidades da Europa e da Ásia, cresce a adoção de soluções baseadas na natureza: telhados verdes, jardins de chuva, pavimentos permeáveis, recuperação de áreas úmidas e ampliação da arborização urbana. Essas medidas ajudam não apenas a controlar enchentes, mas também a reduzir as temperaturas extremas, melhorar a qualidade do ar e da população.
O Brasil possui excelentes centros de pesquisa, universidades e especialistas capazes de orientar políticas públicas modernas. O que frequentemente falta é vontade política e visão estratégica. Muitas prefeituras ainda tratam obras de drenagem, arborização e proteção ambiental como despesas secundárias, quando deveriam ser encaradas como investimentos essenciais em segurança pública.
As questões suscitadas pelas mudanças do clima precisam entrar definitivamente, como prioridade, na agenda do poder público. Cada área verde eliminada, cada córrego canalizado sem critérios técnicos aumenta a vulnerabilidade das cidades diante dos fenômenos extremos que já se tornaram parte da nova realidade climática.
Tudo indica que o Super El Niño virá com a intensidade prevista pelos especialistas. As medições mostram que as águas do oceano Pacífico seguem acima da temperatura normal, o que intensifica a evaporação e aumenta a umidade na atmosfera. Esse cenário favorece a ocorrência de chuvas mais volumosas e intensas, especialmente nas regiões onde o fenômeno costuma ter maior influência.
Todavia é quase certo que as providências serão tardiamente tomadas.
As cidades precisam deixar de ser espectadoras dos eventos climáticos para se tornarem protagonistas no esforço global de adaptação a esses novos tempos.
No século XXI, a verdadeira medida da competência de um administrador público não será apenas quantas obras inaugurou, mas quão preparada deixou sua cidade para enfrentar um clima que já não se comporta como antes.
Não há tempo a perder. A hora de agir é agora.
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