Se fosse hoje o Plano Real não seria aprovado

No começo da década de 1970, os países produtores de petróleo, cientes da natureza não renovável das reservas de suas jazidas, começaram a regular o escoamento da produção petrolífera, aumentando com isso o preço do barril. Para se ter uma ideia do impacto dessa medida na economia mundial, em um único ano (1973) o preço do barril triplicou em apenas três meses.

Uma das consequências desse aumento foi a hiperinflação brasileira. Na coleção “O Senado na História do Brasil”, o jornalista Ricardo Westin sumariza a origem desse flagelo: “fortemente dependente de petróleo importado, os Estados Unidos passaram a ter uma inflação considerável. Para contê-la, o banco central americano aumentou as taxas de juros do país. Isso acabou afetando o mundo todo e provocou uma recessão generalizada”. Com isso as dívidas dos países da África e da América Latina com os bancos dos Estados Unidos aumentaram exponencialmente.

Para os países latino-americanos foi um desastre: em 1982 o México teve de decretar moratória, ou seja, o calote da dívida externa. No Brasil tivemos de amargar, ao longo de 15 anos – de 1979 a 1994 -, a hiperinflação. Para se ter uma ideia do que isso significa, houve momentos em que o preço de um produto ao longo de 12 meses aumentava 68 vezes.

E o que era pior: ninguém sabia como sair dessa situação: de 1985 a 1994, as medidas tomadas para tentar acabar com a hiperinflação – Plano Cruzado, Plano Bresser, Plano Verão, Plano Collor 1 e, na sequência, Plano Collor 2 – não deram resultado.

Finalmente, em 1994, sob a presidência de Itamar Franco, o seu ministro da Economia Fernando Henrique Cardoso conseguiu, com o Plano Real, domar a fera inflacionária e desde então, com altos e baixos – mas de jeito nenhum sequer próximo do caos anterior – o Real se consolidou como a moeda nacional e comemoramos seus 30 anos no fim deste mês de junho.

E nos deixou uma lição que até o presente parece não ter sido compreendida: a importância da convergência dos diversos grupos políticos antagônicos, não importa suas crenças e doutrinas, em matéria de interesse nacional, do interesse de todos.

Ao longo dos últimos anos, com a chamada polarização – ou seja a divisão nacional entre dois grupos antagônicos – o que tem prevalecido na tomada de decisão não é o interesse do País, mas se trata-se de uma iniciativa deste ou daquele grupo.

Enfrentamos, na época da hiperinflação, um desafio concreto, que poderia, como já nos aconteceu quando – apesar dos esforços do Barão de Mauá na direção contrária – perdemos o bonde da Revolução Industrial, o que nos levou à condição de país subdesenvolvido.

Nosso País enfrenta hoje igual, senão maior desafio, na questão do desequilíbrio do clima. No entanto, apesar da brutalidade das suas consequências – que estão acontecendo agora e são diariamente estampadas no noticiário – em razão da polarização não conseguimos nos unir e exigir que a prioridade nacional seja a tomada de medidas capazes de fazer frente a essa ameaça.

O equívoco dessa cisão é ainda maior quando se sabe que o Brasil tem, no enfrentamento desse desafio, a oportunidade de avançar para o grupo das nações desenvolvidas, na medida em que tenha como prioridade a preservação do nosso bioma e a transição da matriz energética para fontes renováveis – já é assim, em grande parte, com nossas hidrelétricas – e, com isso, avance para o topo da Nova Economia, cuja matriz é o mercado do carbono.

Não podemos ver a Política como um jogo entre dois times rivais. Eleitor não é torcedor, pelo contrário. A decisão de voto não pode ser objeto de paixão, mas sim de um pensamento isento, que leve em consideração as suas consequências.

Fosse assim, naquela época o Plano Real não teria sido aprovado e não estaríamos hoje em um patamar que nos permite avançar, de fato, tanto na Economia como no desenvolvimento real da Nação.

Miguel Haddad

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