O Brasil tem jeito?

Na década de 1940, fugindo da Segunda Guerra Mundial, o renomado escritor Stefan Zweig asilou-se no Brasil. Impressionado com o nosso potencial escreveu o livro “Brasil, um País do Futuro”, sua obra mais conhecida, best-seller mundial. Vem daí a nossa fama de ser o país do futuro.

Como essa profecia com o passar do tempo não se concretizou, o Brasil passou a ser visto, ironicamente, como o eterno país do futuro, e a nossa economia, em razão de sua instabilidade crônica, equiparada ao voo da galinha, sempre curto e baixo.

Os estudiosos têm atribuído essa inconstância a inúmeros fatores. A economista Zeina Latif aponta, com acuidade, um elemento chave – temos o olhar voltado para o passado e resistimos, por isso, aos avanços da modernidade. De fato: o fim da escravidão por aqui somente ocorreu meio século depois de ter sido abolida na Inglaterra, a lei do divórcio tramitou por 40 anos no Congresso antes de ser aprovada e somente em 1988 a Constituição passou a reconhecer as mulheres como iguais aos homens.

Esses são apenas alguns exemplos do prejuízo econômico e social da nossa dificuldade em voltar o olhar para o futuro e utilizar o potencial das nossas riquezas naturais que nos credenciam não para nos mantermos na retaguarda, mas na vanguarda das economias mundiais.

Estamos assistindo agora, mais uma vez, à reedição desse reacionarismo. A economia na qual os que buscam travar o progresso militam é do passado, baseada em combustível fóssil, desmatamento para criação de gado, devastação de biomas para ampliar a área de agricultura e por aí vai. Em plena Era do Conhecimento a mentalidade dos defensores desse modelo pouca diferença tem do fazendeiro dos séculos passados. Eis aí o exemplo claro do que, com acuidade, Zeina Latif denomina da “olhar voltado para o passado”.

Esse reacionarismo, que sofre pesadas críticas dos setores modernizantes da política e da economia nacional, raramente é explicitado em toda a sua crueza. Não foi por outra razão que um dos expoentes dessa visão arcaica, em uma reunião de ministros, deixou claro que precisavam de cortinas de fumaça para “deixar passar a boiada”.

E, no entanto, não é nada difícil entender as vantagens da busca pela competitividade – e do lucro – em um país como o nosso, que parece moldado para usufruir, por sua natureza, as vantagens do que poderíamos chamar de Nova Economia.

Na ponta do lápis fica claro que, com o andar da carruagem, é mais rentável aproveitar as vantagens comerciais de manter a floresta em pé do que devastá-la. Que é mais rentável investir na nossa matriz energética – baseada majoritariamente no aproveitamento dos nossos recursos hídricos, em razão do sistema de barragens – do que insistir na mineração de carvão para produzir energia suja, ou incentivar para valer a produção de energia eólica, outra dádiva natural do nosso país, também não poluente.

O olhar para o passado está presente neste exato momento em que assistimos ao desmonte da proposta inovadora da ministra Marina Silva, pelo afã retrógrado do imediatismo, infenso na sua luta pelo que será logo obsoleto, incapaz de entender a necessidade de nos prepararmos para o futuro, defendendo a extração de petróleo na área da Amazônia Legal.

Os que defendem hoje essa posição reacionária – no sentido de ser contra as inovações do futuro – são idênticos àqueles que defendiam o comércio de escravos como fonte de renda da nação e assim como os chamados fisiocratas – que arguiam que a única fonte de renda real para uma nação era a Agricultura e o Mercantilismo.

Em razão dessa postura tão reacionária então, como é hoje a defesa do “passar a boiada”, perdemos o bonde da Revolução Industrial, defendida pelo clarividente Visconde de Mauá. Naquela época a renda nacional era, senão superior, igual a dos Estados Unidos. Não fosse esse reacionarismo poderíamos estar hoje vivendo em um país desenvolvido, livres das mazelas da fome e da miséria nas proporções dantescas que hoje nos amesquinha.

Alguém já disse que insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes.

Até quando?

Miguel Haddad

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