O paradoxo do pessimismo

É difícil entender o pessimismo em relação à economia brasileira que contamina a maior parte da imprensa e muitos analistas profissionais. Nem parece que estamos apenas no sétimo mês de um governo que está promovendo, de forma absolutamente surpreendente, uma verdadeira revolução na organização econômica do país.

Veja a PEC do teto dos gastos. Por meio de uma simples peça de legislação constitucional ficaram garantidos os fundamentos fiscais da economia por pelos menos dez anos e talvez também pelos dez anos seguintes. Recentemente Maria da Conceição Tavares disse numa entrevista que a medida é uma "construção diabólica" e não dá para discordar. A única divergência é que vemos isto como um elogio ao governo.

A sustentabilidade fiscal é pré-requisito não apenas para o crescimento econômico, mas também para políticas sociais eficazes e duradouras. Ao invés de ficar lutando contra a responsabilidade fiscal, a esquerda deveria estar preocupada com a incidência distributiva dos impostos e gastos públicos, com a regulação da concorrência para coibir práticas monopolistas que aumentam a concentração de poder e riqueza e com o combate à corrupção.

Não tenho receio em afirmar que a PEC do teto é provavelmente uma das três mais importantes iniciativas de política econômica dos últimos cinquenta anos. As outras duas? A reforma monetária do Plano Real e a criação do Copom, que instituiu de fato a independência operacional do Banco Central.

Este governo, às vezes dito "pinguela" e de apenas sete meses, não apenas equacionou a questão fiscal, mas está também conseguindo ancorar as expectativas de inflação no centro da meta. Esse termo técnico, "ancoragem", indica que temos agora evidências de que os agentes econômicos estão embutindo em suas decisões a hipótese de que a inflação futura será efetivamente próxima a 4,5%. Ou seja, o governo pinguela está conseguindo controlar a inflação apenas através da ação de uma autoridade monetária independente e de alta credibilidade e, o que é melhor, sem a necessidade de redução significativa na taxa de câmbio real. A inflação está sendo ancorada sem que o país perca competitividade no comércio exterior, algo que será muito saudável para o futuro de nossa atividade produtiva.

Além desses dois pilares da política macroeconômica, o governo pinguela está também desenvolvendo outras iniciativas altamente positivas de reorganização da economia. Veja os avanços em matéria de concessões e privatizações, a reestruturação da Petrobras e do BNDES, a repatriação de ativos financeiros não declarados, a reforma do ensino médio e, claro, a reforma da previdência.

Bom, mas e o curto prazo? Sem dúvida o curto prazo está muito desagradável, mas isto tem mais a ver com os erros cometidos no passado do que com as boas perspectivas do futuro. Ainda assim é importante evitar leituras imprecisas do que está acontecendo. Por exemplo, o consenso agora entre analistas profissionais é que teremos um crescimento anual do PIB de 0,7% em 2017.

Acontece que esta medida subestima a velocidade real de crescimento dentro do ano de 2017, pois estamos comparando o PIB para todo o ano de 2017 com o PIB para todo o ano de 2016. Ou seja, a medida é afetada pelo que já aconteceu dentro de 2016, ao passo que gostaríamos de medir o que vai acontecer exclusivamente dentro de 2017. É um ponto sutil, mas importante.

A forma correta para medir isto é calcular a variação percentual entre o final de 2016 e o final de 2017. Aí sim teremos uma indicação precisa do comportamento da economia ao longo ou dentro de 2017. Um crescimento do PIB anual de 0,7% em 2017 corresponderá a um crescimento do PIB ao longo de 2017 da ordem de 1,7%.

Acontece que ficamos sabendo agora que o crescimento em doze meses até novembro foi superior a 20% na produção de automóveis, superior a 50% na produção de ônibus e superior a 80% na produção de máquinas agrícolas colheitadeiras. Então fica difícil escapar da impressão de que "eppur si muove", como diria o grande Galileo Galilei. Tem algo se movendo no setor produtivo brasileiro e isto nos leva a projetar um crescimento anual um pouco melhor para 2017, próximo a 1%. Neste caso a taxa de crescimento ao longo de 2017 será de 2%. E pode-se apostar que, a partir de 2018, a economia brasileira estará num ritmo normal de crescimento, entre 2,5% e 3% ao ano.

É verdade que temos no curto prazo um problema de desemprego, herança inevitável da brutal queda da atividade no período final do governo Dilma. Entre o início de 2015 e agora o número de pessoas desocupadas aumentou em cerca de cinco milhões. Na realidade, porém, o número de pessoas ocupadas caiu apenas metade disso, isto é, o número de empregos foi reduzido em cerca de dois e meio milhões. A outra parte do desemprego resultou do fato de que pessoas que não trabalhavam antes passaram a procurar emprego agora. É natural que isso tenha ocorrido, já que quando a renda familiar cai muito, gente que não trabalhava se vê obrigada a procurar emprego. O lado bom é que, quando a renda familiar começar a se recuperar, essas pessoas poderão sair da força de trabalho reduzindo o desemprego.

O desemprego é nosso principal problema e não é fácil imaginar uma solução simples. Com a recuperação da economia certamente vai diminuir, mas não rapidamente. Até o final de 2018 a redução no número de desempregados poderá ser de apenas um milhão de pessoas. Nessa situação uma intervenção seletiva e temporária do governo poderia até ser justificável, mas como fazer isto dentro do novo regime fiscal? É o grande desafio do momento, mas não justifica o pessimismo generalizado.

A inflação está sendo ancorada sem que o país perca competitividade no comércio exterior, algo muito saudável.

A sustentabilidade fiscal é pré-requisito para políticas sociais eficazes e duradouras.



Francisco Lafaiete Lopes é PhD por Harvard, sócio da consultoria Macrométrica e ex-presidente do Banco Central (BC).

Entre em contato!