Ventos nada favoráveis

As fortíssimas turbulências que atingem o mercado de ações chinês podem ajudar a empurrar mais rápido para baixo a economia da China e, com isso, tornar mais lenta a recuperação econômica global, sobretudo no lado dos países emergentes, Brasil incluído. Para tentar entender onde essa história pode acabar, contudo, é preciso separar o que ocorre nos pregões das bolsas chinesas com o que se passa na economia real. Embora sejam ambos movimentos de correção de excessos, cada um obedece a uma dinâmica própria.

Nas bolsas, há o estouro de uma bolha de ativos, alimentada pelo excesso de liquidez financeira. Na economia, opera uma pressão para baixo, provocada pelo excesso de capacidade instalada, em relação à demanda existente. Combinados, os dois eventos em marcha confirmam antigas suspeitas de que a corda da segunda maior economia do mundo, responsável por suavizar o crash de 2008, pela explosão de demanda por commodities, estava esticando demais.

A China, locomotiva que puxou o trem da economia mundial, no período recente mais crítico de contração global, agora resfolega.

Apesar do todo o mistério e as consequentes incertezas que envolvem as informações econômicas chinesas, o caso do mercado de ações parece replicar roteiros clássicos. Estimulados por uma política monetária frouxa, de juros baixos, que assegurava farta liquidez aos mercados, os investidores recorreram a financiamentos para aplicar em ações de empresas cotadas em bolsa, na expectativa de saldar as obrigações contratadas com parte do retorno prometido pelos papéis. Faltou, porém, combinar com a demanda e a frustração dos lucros desencadeou uma onda de venda de ativos.

No ano, até maio, a bolsa chinesa atraiu mais de 30 milhões de novos investidores, registrou alta de 60% no ano e dobrou seus ganhos nos 12 meses encerrados em maio, descolando-se dos fundamentos da economia. A volta do parafuso foi tão acelerada e profunda quanto o movimento inicial no sentido inverso. Com o recuo desta segunda-feira, o maior para um único pregão desde 2007, o índice da bolsa de composto de Xangai voltou ao nível de janeiro.

Esse movimento de ajuste no mercado financeiro é compatível com a perda de ritmo da economia chinesa. Desde o pico de 2010, a desaceleração é evidente. O crescimento recuou de 10,5%, naquele ano, a 7,4%, em 2014, e a tendência é furar para baixo a linha dos 7%, apesar dos esforços do governo chinês para evitar que isso ocorra. De janeiro a julho deste ano, exportações e importações recuaram mais de 8,5% e as imensas reservas cambiais chinesas encolheram de US$ 3,99 trilhões para US$ 3,65 trilhões. Num sinal de fraqueza da demanda, o índice de preços ao produtor, em queda há 42 meses, registrou em julho contração recorde de 5,4%. Tudo considerado, a desvalorização do yuan, que soma 5%, tem espaço para chegar a 10%.

As reações dos mercados às hesitações da economia chinesa mostram o que estará em jogo se o estado de desaceleração, como previsto, se tornar permanente na China. Em primeiro lugar, as cotações de commodities tendem a recuar ainda mais, trazendo dificuldades adicionais à obtenção de divisas pelos países exportadores – as receitas de exportação encolherão tanto pela redução da quantidade vendida quanto pelos preços em queda ou pelo pior dos mundos de queda em ambos. Depois, é fácil prever um acirramento da competição no comércio internacional, com um movimento generalizado de desvalorização de moedas frente o dólar, ainda que o Federal Reserve decida adiar o início da normalização da política de juros, nos EUA.

Para a economia brasileira, os ventos que agora sopram da China não são nada favoráveis. As tendências de desvalorização do real ante o dólar e da alta do CDS Brasil – uma tradução do aumento da percepção de risco da economia brasileira –, que vieram na sequência da derrubada da bolsa chinesa, são um indicativo de que as dificuldades do reequilíbrio da economia ficaram ainda maiores.

 

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