Coisa de Paulista

Minha atividade como administrador público, tendo sido prefeito de Jundiaí por três vezes, sempre me levou a procurar outras experiências para trazer o melhor para minha cidade. Nessa busca, a partir de meus contatos com prefeitos de todo o Brasil, havia uma questão recorrente: por que uma economia assume, em certo momento, uma dianteira em comparação com as demais, como estava acontecendo com a minha cidade e, também, com outros municípios do interior de São Paulo? E ainda: em que isso poderia ser útil para o direcionamento do nosso desenvolvimento atual?
Desses contatos, dessas experiências, fui reunindo um material interessante sobre as razões do desenvolvimento do interior paulista. Daí, veio a ideia de preparar um livro que abordasse essa questão.
Quando estava ainda por me decidir, aconteceu um fato determinante para que eu o fizesse: a região assumira a liderança do desenvolvimento nacional, superando a Grande São Paulo, considerada, desde as primeiras décadas do século passado, a locomotiva do Brasil.
O resultado de tudo isso se chama “Coisa de paulista”, livro publicado em 2014, pela Editora Lazuli, com apresentação do renomado historiador Jorge Caldeira. Nas primeiras semanas, o livro ocupou a lista dos dez mais vendidos nacionalmente, no gênero não-ficção, conforme relação publicada pelo jornal O Globo e a revista Época. 

No livro, noticio a ascensão do interior de São Paulo, que se tornou o maior mercado consumidor do País, o que gera mais empregos e, mais relevante ainda, está em primeiro lugar também em saneamento básico, qualidade de ensino, inovação e produção de conhecimento.
Entre as razões pelas quais isso se deu, destaco aquela que denomino “coisa de paulista”. Não há aí nada de bairrismo, até porque São Paulo é uma construção de todos os brasileiros. O que fiz foi tornar positiva uma expressão que era usada de forma negativa, como crítica à nossa disposição de empreender, de forma pragmática, numa economia de livre mercado.
Precisamos substituir a ideologia pelo pragmatismo e partir para uma economia que seja a favor do empreendedor nacional. É isso que dá certo. Entrar no mercado, lutar para vencer e melhorar de vida. É isso que o povo brasileiro quer. É isso que eu chamo “coisa de paulista” e é por aí que o Brasil encontrará o seu caminho.

 

Prefácio - Jorge Caldeira

Caro leitor,

Para explicar os pontos importantes do livro que se segue, não me resta mais do que começar por um dado particular. Até o dia em que escrevo este prefácio, nunca tive contato pessoal com o autor. Mais ainda, meus contatos com Jundiaí, onde Miguel Haddad foi prefeito três vezes, se limitam à travessia do território do município pela Bandeirantes ou a Anhanguera - a exceção foi uma estadia de duas horas no estádio Jaime Cintra, para assistir a um jogo da Portuguesa em 2001.

prefacioPeço então minhas desculpas a todos para os quais as questões de política partidária ou localismo sejam primordiais, lembrando que há partes do texto capazes de satisfazer a tais justos anseios, que eu infelizmente não tenho capacidade para avaliar.O que realmente me impressionou no texto foi um conjunto de ideias sobre processos econômicos e sociais muito recentes, que foram percebidos e trabalhados na prática política por autoridades locais, entre as quais o autor se inclui. Ao mesmo tempo, tal conjunto passa despercebido em muitas análises feitas a partir daquilo que secularmente se estabeleceu como centro de inovação e pensamento social: as grandes cidades e a instância central de governo.

Miguel Haddad estabelece o ponto central da seguinte maneira: Em uma sociedade que se organiza cada vez mais em rede, seja virtual ou física, a compreensão da importância da ação local pode fazer a diferença. Ainda mais quando se observa que atualmente, em nosso país, o executivo local tende a descortinar um horizonte mais amplo, que vai além da ação emergencial paliativa. (...) Com um olho na cidade e outro no mundo, o modelo do executivo municipal é hoje a encarnação do lema: “Pense globalmente, aja localmente”.

prefacioEm todo o texto podem ser encontrados argumentos efetivos para mostrar que este lema se aplica à prática, e que os resultados visíveis desta prática podem indicar um processo de mudança amplo, capaz de questionar a dupla que dominou o século 20 brasileiro: urbanização acelerada em grandes centros e - depois de 1930 - um poder central interventor.

Ir para a cidade grande significava então melhores oportunidades de riqueza (seja pelo trabalho ou pelo empreendimento), condições superiores de educação e saúde, opções culturais e de comportamento mais amplas. As políticas do governo central, por sua vez, ajudavam a concentrar essas vantagens nos grandes centros urbanos.

Miguel Haddad traz um conjunto significativo de casos estudados que mostram algumas importantes inversões nesta tendência. Para não deixar de lado sua Jundiaí, mostra como a cidade tem 100% de esgoto tratado, mortalidade infantil europeia e Índice de Desenvolvimento Humano dos mais elevados do país.

Mostra também que sucesso social está relacionado ao econômico: ali o PIB vem crescendo a uma média de 3,72% ao ano nos últimos 25 anos, contra uma média paulista de 2,33%. O longo período de crescimento maior já seria suficiente para mostrar que não se trata de um acidente – mas o autor faz questão de mostrar que o caso de seu município não é isolado.

São Carlos cresce com uma população com alta participação de doutores e pesquisadores; Sorocaba cresce com grande atenção à questão ambiental, implantando ciclovias e reflorestamento como atividades estruturais da política local, ao mesmo tempo em que instala acesso público e gratuito à internet; São José dos Campos mistura a preocupação de sustentabilidade com pesquisa aeroespacial. E por este novo interior ele vai.

prefacioO percurso pelos casos de sucesso econômico e social, por si só, já tornaria a leitura interessante. Mas a dimensão política não poderia ficar de fora num livro de autoria de um político. E, nesse setor, Miguel Haddad coloca as coisas da seguinte forma: "É na cidade, no bairro, na escola, na comunidade, que se inicia o exercício da participação. E é fundamentalmente aí que a democracia mostra seu vigor mais genuíno, até mesmo porque é nesse âmbito que existe maior proximidade entre eleito e eleitor".

Ao longo do século 20 o poder local foi o cisne negro do pensamento político. Na primeira república os mandatários locais foram tratados como coronéis, figuras repulsivas e secundárias manipuladas pelo poder central. Com isso se reforçou a ideia posterior de que apenas a ação do Governo Central civilizava.

Os casos de sucesso econômico e administrativo fazem Miguel Haddad propor claramente uma nova valoração da administração local:

As cidades, Brasil afora, que têm prosperado, conseguiram avançar em grande parte por insistirem no uso de boas práticas administrativas, tratando o morador com respeito, seguindo a via do desenvolvimento a partir de programas que são executados, algumas vezes ao longo de décadas, sem solução de continuidade e sem se deter em empecilhos ideológicos.
prefacioA democracia de melhor qualidade seria parte importante da construção do sucesso econômico – e isso leva diretamente a um sentimento: “É preciso, complementarmente, termos clareza acerca do papel e da importância da ação local, seja regional, seja municipal ou distrital no encaminhamento das soluções nacionais. E ele mesmo coloca os limites para isso: Pode-se avançar localmente em um número de quesitos, mas não se pode esperar que uma cidade brasileira, por mais que apresente índices diferenciados das demais, esteja livre dos problemas que caracterizam o conjunto das cidades brasileiras”.

Assim o grande dilema do Brasil atual é definido nos seguintes termos: “A ineficiência do Estado brasileiro, causada pelo atrelamento da administração a dogmas do fundamentalismo ideológico”.

Para mim, a riqueza do livro tem muito a ver com este ponto de vista do autor, segundo o qual o sucesso dos casos municipais que ele trata deve ser o modelo para o tratamento do todo nacional. Visto assim o poder central aparece como atrasado e ineficaz – por ser menos democrático, mais ideológico e, especialmente, menos capaz de responder aos desafios do desenvolvimento econômico e construção de um futuro numa era de rede.

Entretanto, o mais importante é como o ponto de vista se desdobra. A tensão entre o sucesso local e as agonias gerais não se resolve pela afirmação de princípios. A busca é de uma solução pragmática para irrigar o poder central dos modos de atuação que estão tendo sucesso no âmbito local.

Fica para o leitor (e cidadão na democracia) o julgamento final dos caminhos a seguir a partir dessa nova valorização do poder local: o livro dá muito o que pensar.

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