A Copa de Todos

Fonte: http://bit.ly/1NegW0W


Em seu artigo “E se não fossem os negros?” (publicado, recentemente, no jornal O Estado de S. Paulo), o mestre Roberto Damatta nos faz ver a importância da seleção brasileira sob um ângulo pouco abordado, no entanto, de importância fundamental na transformação da maneira de ver a questão do preconceito racial, mundialmente.
Inventado pelos ingleses, o futebol era, no começo, um esporte praticado por europeus ou, então, pela elite local, nos países onde tinham forte presença econômica, como o Brasil. Aqui, por muitos anos, a seleção era “branca”, entre aspas, porque em nosso País havia maior miscigenação, o que nos livrou, se não do preconceito que infelizmente ainda perdura, pelo menos dos critérios odiosos dos racistas de outros países, cujo ápice foi a segregação americana e o apartheid da África do Sul. Nesses países, a segregação racial chegou a ser uma política de Estado.
O futebol, mais especificamente a seleção brasileira e o culto mundial que a cerca, foi responsável por uma grande mudança nessa atitude. Ao dar início, na década de 1930, à convocação de jogadores negros e arrebatar, posteriormente, sucessivas vitórias em copas do mundo, a seleção nacional quebrou um tabu, cujo resultado pode-se ver, de forma clara, na Copa do Mundo que está sendo realizada.
Aproximadamente 195 jogadores negros - conforme informa o professor Richard Moneygrand, citado por Damatta em seu artigo - participam do certame. Segundo Moneygrand, “sem negros, mestiços e mulatos não haveria esse futebol maravilhoso que renasce em cada Copa do Mundo. Foram vocês brasileiros que, a partir de 30, mulatizaram o futebol mundial, colocando-o na Ásia, no Oriente Médio e na África”.
Já há tempos a importância do papel do futebol como agente de entendimento e congraçamento mundial, superando todas as demais atividades do gênero, vem sendo destacada por analistas e pesquisadores. O seu caminho é o do espetáculo, da disputa e da paixão, que canaliza conflitos latentes para o campo do esporte, contribuindo para uma melhor convivência entre os povos.
Por essa razão, quando formos torcer pela seleção brasileira, assim como fazem todos os demais países por suas seleções, em um espetáculo planetário que arrasta multidões, podemos fazê-lo, independente do resultado, com a consciência de estarmos participando de um encontro da grande família humana.
O papel relevante do Brasil nesse processo é um exemplo da contribuição essencial da cultura negra para o nosso País. Daí o título do artigo de Damatta, que todos deveríamos trazer no coração.
MIGUEL HADDAD é ex-prefeito de Jundiaí

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