Plano Real, o antes, o depois e o agora

JundiaAqui, março de 2014


A passagem dos 20 anos do Plano Real permite, pela distância, um entendimento maior do seu significado na história recente do Brasil.
Embora, ao ser lançado, tenha sido criticado por representantes da direita, centro e esquerda – Lula declarou que se tratava de um “estelionato eleitoral” e o FMI foi contra - o plano funcionou como um relógio. Em pouco tempo, a hiperinflação foi debelada, um feito que muitos não julgavam possível.

Como resultado, a renda dos assalariados cresceu, o dinheiro passou a ter valor de fato, as pessoas sabiam o preço do que iam comprar e viam que não aumentava da maneira como acontecia antes. Éramos como sobreviventes de um naufrágio, perplexos com a salvação.

E o que era verdadeiramente novo: passamos a olhar o futuro com mais confiança e esse talvez tenha sido o mais importante legado dessa grande mudança, assim como a atual volta à situação anterior - na medida em que cada vez menos brasileiros acreditam hoje nas instituições e em um futuro melhor -, seja o pior revés que nosso País sofre, no presente.
Naquela época, a defesa do Plano Real parecia ser, para sempre, uma bandeira da Nação e todos compreendiam a sua importância para avançarmos e, finalmente, encontrarmos o caminho para livrar o Brasil do subdesenvolvimento.

O que aconteceu de fato? Hoje, grande parte da população (segundo pesquisa com os brasileiros de 16 a 35 anos, 45%) não tem ideia de como era antes do Plano Real. O ex-presidente Lula faz pouco caso, dizendo que inflação é preferível ao desemprego, como se fosse nossa sina viver sempre em uma nação que não consegue encontrar soluções efetivas para seus problemas básicos.

Esse descuido cobra o seu preço. Quando se vê o governo, frente ao atual estado da nossa economia, ao invés de fazer as devidas correções, continuar a fazer mais do mesmo, maquiando os índices, mantendo artificialmente baixos os preços dos combustíveis e da energia, criando, com isso, um rombo que terá de ser ressarcido - o que não acontecerá, por motivos óbvios, antes das eleições - cresce o temor da volta da espiral inflacionária.

Naturalmente, nada impede que, no futuro, quando a inflação chegar novamente a patamares insuportáveis, o País volte a se unir e exija o fim dessa insensatez e um novo Plano Real venha a ser feito e possamos então voltar à estaca zero e começar tudo de novo. Na verdade, não há aí nenhuma novidade, pois essa tem sido uma marca da história econômica brasileira, conhecida por seus arrancos que morrem na praia, o famoso “voo de galinha” que caracteriza a economia nacional.

Não é por outra razão que se diz que aqueles que não aprendem com os erros de sua história estão condenados a repeti-los.
A economia estabilizada, que se tornava potente, e nos levava a sonhar com a possibilidade de nos tornarmos um país livre do subdesenvolvimento ainda está ao nosso alcance. Mas, para isso, é preciso agir, agora, e mudar a condução da economia brasileira. Do contrário, seremos obrigados, como dizia Churchill, a ouvir duas palavras terríveis: “tarde demais”.
 

Miguel Haddad é ex-prefeito de Jundiaí 

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