O que está acontecendo?

Jornal de Jundiaí, maio de 2014

Fruto do sentimento de insatisfação generalizado, o País atravessa um período de convulsão, com incessantes manifestações de rua, vandalismos, paralisações em série e linchamentos, sem que se vislumbre qual será o desfecho dessa situação preocupante.

Já há algum tempo esse quadro vem afetando, de forma negativa, o desempenho da presidenta nas pesquisas de intenção de voto, ameaçando a sua reeleição, até recentemente dada como certa. Tornou-se comum, nos eventos aos quais tem comparecido, ouvirem-se vaias.

Procurando minimizar a dimensão da crise, o Planalto usa a diminuição do número de pessoas nos protestos de rua como indicador de uma possível redução da acidez da população com relação ao governo. Nada mais falso.  Só não temos mais grandes manifestações, como ocorreram no ano passado, por causa do vandalismo dos black blocs, que a população rejeita fortemente.

Seria alentador se a equipe da presidenta deixasse de lutar contra os fatos e procurasse entendê-los. Até porque os sinais da deterioração, causadores da indignação dos brasileiros, não podem ser varridos para debaixo do tapete, pois estão, como capítulos de uma novela, à vista de todos, diariamente, na imprensa. Na economia, chega a ser monótono ver as declarações oficiais invariavelmente desmentidas pelos índices apurados. Quando prometem “pibões”, já sabemos que virão “pibinhos”. A última é que “ano que vem o Brasil vai bombar”.
Na inflação, por exemplo, a tentativa de ocultar esses sinais atinge o auge. O índice só não ultrapassa o teto da meta por causa da maquiagem dos preços administrados. Não adianta tentar esconder. Todos sabem que o rombo multibilionário da manipulação dos preços dos combustíveis e da energia elétrica cresce a cada minuto, sem que se tome, por causa da eleição, uma providência. Como pode a presidenta prometer que a economia vai bombar, com esse esqueleto no armário? Um dado resume o quadro: no começo do ano, enquanto a inflação do mercado chegava a 7%, a inflação represada dos preços administrados rodava em torno de 1,5%.

O que está acontecendo é que a população está farta de ser enganada. Mesmo que não atente para a questão da economia, sente na pele os resultados: sucateamento da saúde, insegurança, caos na mobilidade urbana, diminuição do poder aquisitivo, educação que não ensina, falta de confiança.
O tempo em que funcionava substituir promessas não cumpridas por novas promessas acabou.  E não há governo que se sustente, quando perde a credibilidade.
 
Miguel Haddad é ex-prefeito de Jundiaí

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