Leitura faz a diferença

O Brasil é um exemplo típico. Com o crescimento econômico dos países emergentes, notadamente a China, a Índia e a Rússia - compradores vorazes de matérias-primas exportadas pelo nosso País - começamos a acumular, nos últimos anos, saldos recordes na balança de pagamentos.

De repente, uma "surpresa": o déficit em transações correntes no primeiro bimestre é o pior desde 1947. a inflação ameaça subir de novo e o Banco Central foi obrigado a elevar de U$ 3,5 bilhões para U$ 12 bilhões a projeção de déficit nas transações de mercadorias e serviços com o exterior para este ano.

Vários analistas, entre eles o jornalista americano Andres Oppenheimer, em seu artigo "America Latina está ficando para trás", haviam alertado para a falta de sustentabilidade de um processo de desenvolvimento econômico dependente de flutuações do mercado externo. Segundo ele, os países que conseguiram manter ao longo de décadas altas taxas de crescimento têm uma característica comum: investiram na educação, promovendo o hábito da leitura e o ensino da matemática e da ciência, tornando-se produtores de conhecimento.

A riqueza de um País, ou de uma cidade, são os seus cidadãos. Para uma comunidade se desenvolver, efetivamente, é essencial que os seus membros sejam pessoas letradas e quanto maior suas habilidades nesse campo, mais sustentável será o seu desenvolvimento. O motor desse processo é o livro.

Pesquisa feita pela OCDE - entidade que reúne os países ricos do mundo -, mostra que as nações escandinavas - que têm o melhor nível de qualidade de vida - são, não por coincidência, aquelas que alcançam as notas máximas nos testes de entendimento do conteúdo dos textos. A América Latina, ao contrário, tem alcançado sempre as notas mais baixas nessas pesquisas. Estudos recentes mostram que, aos 15 anos, os filhos dos trabalhadores manuais americanos e alemães estão mais capacitados para compreender escritos do que os filhos da nossa classe média.

De acordo com um estudioso renomado dessa questão, o professor Ottaviano de Fiori, "o desenvolvimento econômico, social e político do Brasil está sendo sistematicamente freado pela incapacidade generalizada do nosso povo de utilizar a informação que flui dos livros, jornais, revistas e computadores".

Segundo De Fiori, precisamos universalizar o hábito da leitura, em especial, entre nossas crianças e jovens. Para isso, é necessário promover um Sistema de Geração de Leituras que atue em três instâncias: na leitura escolar, através de diretores, orientadores pedagógicos, professores e bibliotecários escolares; na área das bibliotecas públicas, nas quais os atores principais são os bibliotecários, os funcionários das bibliotecas; e na área dos programas comunitários de incentivo à leitura, na qual os elementos principais são as ONGs, as empresas, as famílias e os militantes da leitura, que têm surgido principalmente nas comunidades mais carentes.

Colocar esse sistema de pé e fazê-lo funcionar é essencial para que possamos assegurar o desenvolvimento futuro de nossas comunidades. Essa tarefa tem de ser pensada e promovida nacionalmente - o que, infelizmente, está longe de acontecer - e localmente. O papel dos municípios nesse esforço é fundamental.

As cidades têm todas as condições de mudar esse quadro, criar o seu Sistema de Geração de Leitores, e fazer com que os seus moradores ingressem na nova fase da economia moderna: a produção de conhecimento. Para isso, é preciso que os setores mais conscientes e atuantes sejam estimulados a agir e encontrem no poder público municipal um parceiro capaz de assegurar o apoio decisivo às suas iniciativas.

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