As novas ditaduras

Décadas atrás o Brasil, assim como grande parte da América Latina, vicia sob um regime ditatorial imposto por um golpe militar, que os obrigou a andar na contramão dos países de sucesso, essencialmente, democracias de livre mercado.

O longo processo de ajustes institucionais necessários para a redemocratização nacional cobrou um preço pesadíssimo, inclusive sob o ponte de vista do desenvolvimento econômico, que apenas recentemente, a partir da estabilidade proporcionada pelo Plano Real, começa a ser resgatado.

Era de se esperar que a nossa região aprendesse com a sua história, evitando assim, de uma vez por todas, ter de repeti-la, como infelizmente tem ocorrido, ao longo de séculos.

Tal não é o caso. Com pequenas variações, em termos de estilo, ou seja, substituindo o tradicional golpe de caráter exclusivamente militar pela manipulação e controle dos meios de comunicação, estamos assistindo a instalação de mais um regime ditatorial na América Latina, promovido pelo General Hugo Chávez, que já havia tentando a forma tradicional, sem sucesso, anteriormente.

O roteiro tem sido o mesmo: instituição do comando autocrático, centralizado na figura do ditador, no caso apresentando-se como um salvador da pátria, eliminação de qualquer voz contrária, utilização da repressão militar e silenciamento da imprensa.

Com esse propósito, Chávez acaba de fechar um canal de televisão venezuelano, a RCTV, que lhe fazia oposição. Indignada, a porção pensante do povo venezuelano tem saído às ruas, em protesto.

Consciente do significado dessa medida ditatorial, a estudante Zuleica Gonçalves, de 21 anos, que participara de uma das inúmeras manifestações populares em Caracas, declarou.

"Não estamos aqui só pela RCTV, mas porque sabemos que este é só o começo de um ciclo de ataques à liberdade de expressão que sem dúvida chegará à Universidade"

Essa tomada de consciência parece começar a sacudir o país vizinho, engajando nessa luta, como informa o cientista político venezuelano Oscar Reyes, pela primeira vez, os estudantes que não parecem mais dispostos a sacrificar as liberdades democráticas em troca das vagas promessas da máquina de propaganda chavista.

Sem se deixar intimidar pelas ameaças de Chávez, um outro canas de TV venezuelano, a Globovisión, anunciou sua disposição de substituir a RCTV na oposição ao governo chavista, anunciando que "agora o compromisso é maior".

No entanto, essa disposição já se encontra ameaçada, deixando claro que o problema não era a RCTV, mas qualquer órgão de imprensa que seja de oposição, o ministro das Comunicações Willian Lara, encaminhou ao Ministério Público venezuelano um pedido de investigação com o claro objetivo de intimidar a emissora. Se nada for feito, a Venezuela terá apenas dois canais de TV: Telesul e a Teves, ambos de Chávez.

Enquanto isso, os demais países sul-americanos hesitam em tomar uma posição de repúdio frontal, como determina o compromisso existente entre as democracias do Continente, à instalação de uma ditadura na América do Sul.

É preciso que a população desses países, pessoas como nós, que vivemos em cidades como as nossas, se manifestem localmente, repudiando esse golpe que ameaça nossos irmãos venezuelanos. Tanto lá, como aqui, o papel dos jovens e, principalmente, dos estudantes é fundamental.

Conhecendo a nossa história comum, ao lutarmos pela democracia venezuelana, estaremos lutando, na verdade, pela liberdade de cada um de nós.

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